4
February
#WorldCancerDay
#WeCanICan

Manuel, Portugal

All stories
3.jpg

In English (Portuguese version below)

The beginning of 2015 brought the first sign of what would become one of the biggest challenges in my life: urine with blood. After a suspected urinary infection, I had to make complementary tests. They told me I would wait three to four days for the results, but I already left holding the report. Alarms ringing in my head. In the medical appointment I get confirmation from the urologist: ‘You don’t have one tumour. You have two.’

The doctor proposed surgery for bladder removal because he says it is most likely malignant. For a first approach it seemed a too radical solution and with huge impact on my quality of life! I asked whether there could be an alternative plan. I had a surgery to know ‘my’ tumours better. The results confirmed the initial expectation. Malignant. We were back to square one with the doctor again suggesting bladder removal. And I was back to my appeal for a plan B. We settled on a severe chemotherapy protocol with deep scraping. If it didn’t work, I would be given 18 months to live. I could eventually come to consider bladder removal, but I wanted to be sure I had explored all the alternatives. I didn’t want to hold on to life years, but rather to years with quality of life.

There were three cycles of chemotherapy and new surgery. Balance losses, fatigue, nausea, headaches and sweating became a part of my everyday life. I looked at the pain as being part of my struggle for survival. My family’s support was very important, but their suffering was hard on me. They suffered for my suffering. They suffered for the uncertainty.

In the toughest times I held on to my will to live. I told myself: ‘the disease isn’t beating me. I am beating the disease’. Three months after the second surgery good indicators started showing up and now I’m starting on biannual controls only.

After fighting the disease I was confronted with another fight: returning to work. After more than 30 years of professional experience, answers to job ads and spontaneous applications were sent in the hundreds. I got few replies and, in most cases, I was faced with a requirement that was hard to meet: ‘We want young people with long professional experience’. Days started to look the same, discouragement started to take over the body which was once a fighter and the smile was fading. In 2016 I reached out for help and since December I am enrolled in a multidisciplinary vocational rehabilitation programme at CRPG – Gaia Vocational Rehabilitation Centre. In our group, self tiled ‘The Warriors’, we do different activities, such as cognitive training, use of software, job seeking techniques, communication strategies and adapted physical activity. I can already go up and down the stairs without holding on to the handrail. I use the computer with confidence. I started smiling and believing again. I feel I have greater physical and mental strength. Within this programme, we are also planning a kind of internship to support my return to work.

To those who may be undergoing a similar experience, I leave my message of compassion and strength. Look for alternatives. Believe it’s possible. Ask for help and fully embrace all the opportunities that bring more life to the years of life we conquer.

Em português

No início de 2015 surge o primeiro sinal do que viria a ser um dos grandes desafios da minha vida: urina com sangue. Depois se suspeitas de infeção urinária, tive de fazer exames complementares. Disseram-me que esperaria 3 a 4 dias pelos resultados, mas já não saí de lá sem o relatório. Na minha cabeça soou o sinal de alarme. Na consulta, tenho a confirmação do urologista: “Não tem um tumor. Tem dois.”

O médico propõe-me cirurgia para remoção da bexiga, pois segundo diz, o mais provável é ser maligno. Para primeira abordagem, parecia-me uma solução tão radical e com tantos impactos na minha qualidade de vida! Perguntei se podíamos ter um plano alternativo. Fiz uma cirurgia para conhecer melhor os “meus” tumores. O resultado confirmou a expectativa inicial. Malignos. Voltávamos à casa de partida, com o médico a sugerir novamente a remoção da bexiga. E eu voltei ao meu apelo por um plano B. Acordamos então por um protocolo de quimioterapia severo, com raspagem profunda. Se não resultasse, eram-me sentenciados 18 meses de vida. Eu até podia vir a considerar a remoção da bexiga, mas queria ter a certeza de ter explorado todas as alternativas. Não queria agarrar-me apenas aos anos de vida, mas ter o mais possível anos com qualidade de vida.

Foram 3 ciclos de quimioterapia e nova cirurgia. Perdas de equilíbrio, fadiga, enjoos, dores de cabeça e suores passaram a fazer parte do meu quotidiano. Olhava para essa dor como fazendo parte da minha luta pela sobrevivência. O apoio da minha família foi muito importante, mas custava-me muito saber que sofriam. Sofriam pelo meu sofrimento. Sofriam pela incerteza.

Nos momentos mais difíceis, agarrava-me à minha força de viver. Dizia a mim próprio: “Não é a doença que me vai vencer. Eu é que vou vencer a doença”. Três meses depois começaram a surgir bons indicadores e agora vou passar a ter um controlo apenas semestral.

Depois da luta contra a doença deparei-me com uma outra luta: voltar ao mercado de trabalho. Depois de mais de 30 anos de experiência profissional, enviei centenas de respostas a anúncios de emprego e candidaturas espontâneas. Foram poucas as reações que tive e, na maior parte dos casos, confrontava-me com um pedido difícil de responder: “Pretendemos pessoas jovens com uma longa experiência profissional.” Os dias começaram a ficar todos iguais, o desânimo foi-se apoderando do corpo outrora lutador e o sorriso esmorecendo. Em 2016 procurei ajuda e desde dezembro que estou num programa multidisciplinar de reabilitação profissional. No nosso grupo, autointitulado “Os Guerreiros”, realizamos diferentes atividades, como treino cognitivo, utilização de programas informáticos, técnicas de procura de emprego, estratégias de comunicação e atividade física adaptada. Já consigo subir e descer escadas sem estar apoiado no corrimão. Uso o computador com confiança. Voltei a sorrir e a acreditar. Sinto mais força física e anímica. Ainda no âmbito deste programa, estamos a planear uma espécie de estágio para facilitar o meu regresso ao mercado de trabalho.

A quem possa estar a passar por uma experiência parecida, deixo a minha mensagem de compaixão e de força. Procurar alternativas. Acreditar que é possível. Pedir ajuda e abraçar de corpo e alma todas as oportunidades que deem mais vida aos anos de vida que conquistamos.

Manuel Ferreira, 50 years old/anos

2017.02.08 | Vila Nova de Gaia, Portugal